Na maioria dos casos, a comoção fisiológica e psicológica,
como conseqüência de alguma enfermidade grave,
impõe a decisão de melhorar o nosso modo de
pensar, o que nos leva a procurar melhorar, seguindo o melhor
caminho, e a compreender que o estado de saúde de cada
um depende do seu modo de viver.
A este propósito temos de esclarecer que a saúde e a enfermidade não são
meros problemas materiais, pois não se trata simplesmente de doença ou de saúde,
mas sim de, como seres racionais completos, estarmos sãos ou enfermos. A
enfermidade é um problema físico e moral, que abrange a pessoa toda. Já Buda
tinha parcialmente razão quando afirmava que "toda a dor que afeta o homem é
fruto dos seus erros, apetites e descuidos". Estes nossos erros, apetites e
descuidos não os diminui, em absoluto, a vida moderna e civilizada, técnica e
citadina. O melhoramento físico deve ser acompanhado de uma recuperação da ordem
na nossa consciência, tanto mais quanto o conteúdo do nosso mundo espiritual é
de uma importância às vezes decisiva para a estrutura orgânica e suas funções e, por conseqüência, para a enfermidade e
para a saúde, para a vida e para a morte.
A discórdia, a luta, o temor, as preocupações, a vulgaridade, a angústia,
a vileza, a perversidade, a paixão, são para o corpo e a alma como um alimento
antinatural ou tóxico. Se, pelo contrário, a nossa mente se ocupar de temas
valiosos, bem harmonizados, sentiremos certa potência depuradora e sanadora no
nosso estado físico. A saúde não só compreende o fisiológico, como também o mais
íntimo do nosso ser, isto é, o coração e a sensibilidade de cada um.
A alimentação chegou a converter-se, hoje, por muitas causas, num
problema complexo. A progressiva industrialização, o crescimento das cidades, os
transportes para maiores distâncias e os necessários armazenamentos, são fatores
que conduzem, inevitavelmente, a perdas no seu valor e propriedades. O grande
caminho que têm de percorrer desde o produtor até o consumidor, criou,
igualmente, a necessidade de se recorrer a processos e tratamentos de
conservação que, com freqüência, resultam também bastante prejudiciais para o
valor biológico dos alimentos.
Os hábitos de alimentação da moderna sociedade industrializada, com a sua
preferência para os chamados alimentos «puros» (como o açúcar branco, a flor de
farinha e o sal comum), a grande quantidade de carnes brancas, as gorduras e os
azeites elaborados industrialmente, são também culpados, em grande parte, pelo
aparecimento de enfermidades da civilização, por defeitos constitucionais e por
outros numerosos transtornos da saúde.
Tudo isso, felizmente, fez aparecer o estudo científico da alimentação.
Explorou-se o mundo dos nossos alimentos e verificou-se que estes não só
possibilitam a conservação da saúde, como também contêm propriedades curativas
que até agora haviam passado inteiramente inadvertidas. Temos diante de nós a
tarefa de cuidar e de conservar estas virtudes maravilhosas, mediante a produção
e a transformação dos alimentos para conseguir um aproveitamento plenamente
acertado de tais propriedades.
Uma série de tratados sobre a nossa alimentação permite-nos considerar as
estreitas relações entre a alimentação e o organismo e ensinam-nos a procurar o
remédio para os nossos males na alimentação e a valorizá-la como meio curativo.
A investigação médica trabalha hoje com afinco para conhecer o efeito dos
alimentos no organismo e isolar os seus fatores ativos, sobretudo as vitaminas,
os hormônios, os fermentos e os sais inorgânicos. Embora estes problemas
extraordinariamente difíceis continuem a ser estudados, nas suas fases
decisivas, por peritos no assunto, sendo as notícias raramente divulgadas pela
imprensa, já contamos com uma série de resultados sumamente prometedores. Abundantes trabalhos, mais ou menos
extensos, vão anunciando a sua chegada.
A ciência da alimentação, que conta apenas oitenta anos de história,
extraordinariamente densa e dramática, levou já, neste breve tempo, a êxitos
assombrosos. Milhões de pessoas puderam conservar a vida e a saúde graças a
eles.
Nunca poderei esquecer a impressão que me produziu uma experiência maciça
realizada num campo de concentração de prisioneiros de guerra, na Rússia. Quase
todos os internados sofriam de diarréias disentéricas, que se prolongavam,
durante dias e noites, deixando-os inteiramente inúteis para o trabalho. O
comandante do campo resolveu, então, transportar em caminhões todos os
prisioneiros para um «koljoz» frutícolo. Os mais enfermos foram deixados nas
matas de arbustos de groselhas negras, ao passo que os que se podiam manter de
pé receberam ordem de colher as primeiras maçãs, que foram comidas
abundantemente por todos os prisioneiros. No fim de alguns dias, todos os
doentes estavam curados. Desta maneira experimentei, em mim mesmo, o poder
curativo dos alimentos e fiz o propósito de me dedicar a investigá-lo, de maneira
especial. O resultado do meu trabalho foi este livro, do qual se publicaram 14
edições em alemão, além das que foram publicadas em francês, espanhol e agora em
português.
Este livro inspira-se na convicção de que só se consegue a saúde e o
máximo desenvolvimento da nossa capacidade intelectual, prestando absoluta
atenção às leis naturais, que são as de Deus, e ordenando a nossa vida mediante
o respeito e o amor devido a estas leis.
Por isso, este livro não se propõe tratar, apenas, da alimentação; também
abriga a esperança de que, em horas de repouso, de que todos precisamos, seja
para muitas pessoas um alimento do qual extraiam aquela força que nos serve para
que a vida seja mais sã e mais ditosa. Não se apresenta, apenas, para ser lido,
mas também para ser um fiel companheiro, em todo o tempo, nas horas da saúde e
da enfermidade, sempre pronto a responder com o seu conselho e a prestar ajuda
na escolha do caminho que nos afaste dos males que nos perturbam.
Em resumo, quer este livro prestar a sua colaboração, quem sabe não
totalmente insignificante, na vitória sobre os danos já muito divulgados da
civilização, conforme têm comentado com profunda preocupação todos os
higienistas de renome, e que passam, pelo seu caráter encoberto, inadvertidos
durante muito tempo para o indivíduo, produzindo efeitos tão devastadores que
constituem para a sobrevivência das populações ameaças mais graves do que todas
as enfermidades infecciosas agudas juntas.
Juntamente com os processos de tratamento físico e medicamentoso, o tratamento alimentar, como base
de todas as nossas medidas preventivas e curativas, tem hoje uma importância que
cresce continuamente, conforme a realidade que hoje se verifica do velho
conceito:
«Os nossos alimentos devem ser os nossos medicamentos.»